Volume de transações e o novo perfil dos negócios
O agronegócio brasileiro consolidou-se como um dos setores mais aquecidos do mercado de fusões e aquisições no país. Segundo levantamento da PwC Brasil, o setor registrou 60 operações de M&A entre janeiro e novembro de 2025, alta de 15% em relação ao mesmo período de 2024, com projeção de crescimento de até 40% no fechamento do ano — patamar que se aproxima dos números observados em 2021. Os segmentos de agropecuária, avicultura e laticínios lideraram o avanço, com destaque para operações lideradas por investidores nacionais, que responderam por cerca de 68% das transações do período, concentradas principalmente na região Sudeste.
O primeiro semestre de 2026, porém, trouxe um cenário mais seletivo. Dados da KPMG apontam que o mercado de M&A no agronegócio movimentou R$ 2,983 bilhões entre janeiro e junho, queda de 60,1% frente aos R$ 7,467 bilhões do mesmo período de 2025, ainda que o número de operações tenha se mantido praticamente estável, com 34 negócios ante 35 um ano antes. Para Allan Riddell, sócio-líder da área de fusões e aquisições da KPMG, o movimento reflete uma mudança relevante no perfil das transações: "menos deals, mas deals maiores". O dado reforça uma tendência já observada em outros setores da economia brasileira, em que a consolidação agropecuária passa a privilegiar operações estratégicas de maior porte, em vez de aquisições pulverizadas.
Consolidação entre cooperativas e tradings
Um dos vetores mais relevantes da consolidação agropecuária no Brasil vem do próprio cooperativismo. Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o número de cooperativas em atividade no país recuou de 4.509 em 2023 para 4.400 em 2025, movimento associado à busca por escala e competitividade diante de um mercado cada vez mais concentrado. A entidade tem incentivado o chamado intercooperativismo — fusões e parcerias entre cooperativas — como caminho para garantir a perenidade de operações regionais menores. Ainda assim, o ramo agropecuário do cooperativismo segue em expansão financeira: as cooperativas do setor movimentaram R$ 487,3 bilhões em ingressos em 2025, alta de 11,2% sobre os R$ 438,3 bilhões registrados em 2024, reunindo 1.254 cooperativas e mais de 1,13 milhão de cooperados em todo o país. Simultaneamente, tradings e distribuidoras de insumos têm reorganizado portfólios, com transferência de unidades e redução de exposição direta em determinados elos da cadeia, ao passo que cooperativas e grupos regionais ampliam presença geográfica por meio de aquisições.
Agtechs, biotecnologia e o apetite de fundos de investimento
O interesse de capital especializado no agronegócio também segue robusto. Levantamento da consultoria Valoral Advisors aponta que mais de mil fundos globais tinham cerca de US$ 150 bilhões disponíveis para investimento no agronegócio em 2025, evidenciando o apetite por oportunidades em agricultura, alimentos, nutrição e biotecnologia. Na América Latina, gestoras como Patria, Aqua Capital, Vinci Partners, KPTL, Barn e Vox Capital figuram entre os fundos de private equity e venture capital mais ativos no setor. Já no universo das agtechs, o ritmo de aportes segue mais seletivo do que nos ciclos de maior liquidez, com investidores priorizando modelos escaláveis e resultados comprovados — em janeiro de 2026, quatro startups do agronegócio brasileiro receberam juntas R$ 207 milhões, valor equivalente a cerca de 30% de todo o capital captado pelas agtechs do país ao longo de 2025. O movimento sinaliza uma fase de maturação do venture capital agro, em que a consolidação também se manifesta por meio de aquisições estratégicas de startups por players consolidados, em vez de rodadas isoladas de captação.
O conjunto desses movimentos confirma que a consolidação agropecuária no Brasil deixou de ser um fenômeno pontual para se tornar uma tendência estrutural, impulsionada por cooperativas em busca de escala, tradings reorganizando cadeias produtivas e fundos globais atentos a oportunidades em biotecnologia e agtechs. Para empresas familiares, cooperativas e grupos regionais, entender esse ambiente de fusões e aquisições no agronegócio é condição essencial para transformar consolidação em vantagem competitiva — um processo em que a assessoria especializada faz toda a diferença na condução segura de cada etapa da transação.